Entrevista com Salah H. Khaled Jr. sobre violência x games

O senado colocou em discussão em uma enquete na semana passada a questão da violência x games, acontece após a mídia ter vinculado aos games o Massacre de Suzano, houve toda uma promoção sugerindo que os games eram responsáveis diretamente pelo massacre, uma vez que segundos a mídia, “games deixam as pessoas mais violentas”, então trouxemos o doutor e mestre em Ciências Criminais Salah H. Khaled Jr., autor do livro: Videogame e Violência – Cruzadas morais contra os jogos eletrônicos no Brasil e no mundo, para falar sobre esse assunto, pois nós do Steam Brasil, somos a favor do conhecimento e não de achismo.

Steam Brasil: O que você acha do Senado colocar em discussão a questão dos games e violência?
Salah. H: O Senado fará uma audiência pública sobre a questão, o que por si só não é algo ruim. Pode ser uma oportunidade importante de ocupar o Legislativo e defender a liberdade de expressão artística, que é um direito fundamental. O que preocupa é o rumo que a discussão pode tomar, mas isso teremos que aguardar pra ver.

Steam Brasil: Há alguma evidência de que games tornam pessoas mais violentas?
Salah. H: Não existem evidências científicas de que games provoquem violência, como eu conclui após ter pesquisado a questão durante cinco anos e revisar toda a literatura sobre o tema. As pesquisas de autores como Bushman, Anderson e Grossman tem problemas significativos de metodologia, generalizações apressadas, confusão entre correlação e causalidade e não dialogam com posições contrárias. Na melhor das hipóteses, são manifestamente inconclusivas, o que não impediu que esses autores chegassem a apontar uma relação de causa e efeito tão forte quanto a que pode ser constatada entre fumar e câncer de pulmão – o que é uma irresponsabilidade.


Steam Brasil: Estamos vivendo uma época em que as pessoas estão colocando a moralidade, fé e preceitos religiosos a frente das evidências científicas. Você acredita que tem relação entre essa visão moralista e pode gerar esse achismo da população em culpar os games em casos de extrema violência como foi em Suzano?
Salah. H: Estamos atravessando tempos sombrios. Há quem defenda que a Terra é plana e a lei da gravidade não existe. De fato, ciência e verdade não são coisas equivalentes. Mas qualquer crítica da ciência deve ser norteada por alguns pressupostos, que não são respeitados por discursos fomentadores de pânico. Em tempos de pós-verdade, acreditar no que coincide com o seu ponto de vista é uma tentação sempre presente, então infelizmente eu diria que sim. Se o emissor da mensagem for alguém alinhado politicamente com o destinatário, é possível que ele a receba como “verdadeira” apesar da falta de fundamento empírico.

Steam Brasil: Qual sua opinião sobre o conforto em ser tóxico em ambiente de jogo online e quais as causas para esse comportamento?
Salah. H: Eu já disse isso em outras oportunidades e repetirei aqui, de modo muito direto: os games estão atravessando as mesmas tensões que outros lugares sociais neste momento. O mesmo ódio que você encontra na caixa de comentários do G1 também é encontrado nos fóruns de games e nos ambientes online. O problema não é a plataforma: é o ódio pelo diferente. É isso que temos que combater.

Steam Brasil: Pode haver algum vinculo de violência nos jogos devido a um direcionamento político?
Salah. H: No manifesto de Christchurch e no manifesto de Breivik, atirador norueguês, encontramos uma ideologia de extrema direita que aponta o Brasil como uma espécie de exemplo de tudo que há de errado, fundamentalmente por causa da miscigenação. Mas este componente não está presente em outros atentados, de modo que não podemos considerá-lo como parte do profile de atiradores em geral.


Steam Brasil: Como base em tudo o que foi dito aqui. O que você acha que causa a violência?
Salah. H: O Serviço Secreto americano e o FBI conduziram estudos detalhados sobre os perfis de atiradores em escolas. Eles mostram que apenas 12% deles tinham interesse em games violentos e que, nestes casos, eles pareciam ter mais interesse nas imagens de violência do que na jogabilidade em si.
Considerando o quanto é comum que jovens do sexo masculino tenham interesse em games violentos, tais dados nos levariam à conclusão oposta: a de que os atiradores parecem ter menos interesse em jogos violentos do que a média, não mais. Podemos estabelecer o perfil dos atiradores com relativa facilidade: jovens do sexo masculino que sofreram bullying, com problemas familiares e mentais significativos, que não foram identificados e tampouco tratados. A correlação entre games e violência real é, na melhor das hipóteses, uma especulação.
As pesquisas mais robustas mostram que a fantasia pode ser um catalisador estético, mas jamais de motivação. Se retirada de cena, a violência ainda aconteceria, somente assumiria outra forma. Ela decorre das situações da vida real, não da fantasia. Ataques a tiros são multifatoriais. Se queremos realmente enfrentar um fenômeno cujas causas são difíceis de discernir, temos que adotar estratégias e políticas públicas que contemplem essa complexidade.

Steam Brasil: Qual a importância dos jogos e quais os estímulos que eles podem causar em pessoas depressivas.
Existem estudos que afirmam que os jogos ajudam pessoas com sintomas de ansiedade e depressão. Qual a sua opinião sobre?
Salah. H: Os estudos que apontam efeitos positivos são muito mais robustos e bem fundamentados do que os estudos que apontam efeitos negativos, como aumento de agressividade e dessensibilização para a violência. Neles eu também vejo alguns problemas, mas ao menos podem ser considerados seriamente. O potencial dos games como mídia mal começou a ser explorado e certamente há muito o que discutir.


Steam Brasil: Fale um pouco mais sobre o seu livro.
Salah. H: Eu comecei este livro em 2013, basicamente devido ao caso Pesseghini. Como gamer, fiquei indignado com o discurso que responsabilizou a série Assassins Creed pela tragédia que atingiu aquela família. Como criminologista, nunca considerei convincente a relação entre o consumo de violência na fantasia e a violência real. E como professor de Direito Penal e pesquisador de processo penal, desde o princípio considerei que havia muita coisa não esclarecida na identificação do menino Marcelo como autor dos disparos. Foram quatro anos e meio de pesquisa nos quais eu revisei toda a literatura sobre o tema e tive que pesquisar muitas fontes diferentes para descrever todos os casos nos quais os games foram demonizados, o que começa na década de 1970 e perdura até hoje. É um livro propositalmente escrito de forma acessível, mas conta com fundamentação teórica da Criminologia Cultural, Direito, Psicologia Social e História. O fato de ser facilmente lido e compreendido por leitores de todos os níveis provavelmente é uma das razões para o seu sucesso.

Steam Brasil: E pra finalizar, deixe-nos uma mensagem positiva sobre os games.
Salah. H: Eu encerro o livro com um epílogo chamado “Em defesa de uma inigualável experiência do impossível”. Através dos games, eu experimentei emoções que jamais teria sentido de outra forma. Muito do que eu sou em termos de disciplina e persistência (como acadêmico) se deve ao que aprendi com e nos games. De certa forma, o livro não deixa de ser também uma forma de dizer obrigado e homenagear o trabalho das incontáveis pessoas que ao longo de tantas décadas tem nos proporcionado essas experiências. Precisamos resistir a essas cruzadas morais contra os games. A criminalização da arte sempre é uma escolha equivocada e os games são arte, são expressão artística, como a própria Suprema Corte dos Estados Unidos já reconheceu.

Agradecemos a entrevista dada pelo Salah H. Khaled Jr., ela vai ajudar muitos pais a compreender que os jogos não tornam pessoas mais violentas, esse achismo precisa ser combatido com as ferramentas certas: o conhecimento, esse que estamos trazendo para vocês. Jogos são fontes de diversão e prazer, estimulando o cérebro e ajudando a vencer algumas dificuldades. E para quem quiser comprar o livro Videogame e Violência – Cruzadas morais contra os jogos eletrônicos no Brasil e no mundo, pode comprar nesse link aqui.

Fotos do arquivo pessoal de Salah H. Khaled Jr.
Colaboração de Johnny Fernandes e Eduardo Valente

Written by: Paula Rodrigues

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